Era noite alta e o vento gelado movimentava a cortina do quarto 33, onde
estava internada Malu. Era uma menina de 7 anos, e apesar da luta contra o
câncer que carregava, não deixava de mostrar seu sorriso cativante para aqueles
que contribuíam com a sua melhora. A madrugada já ia alta, eram cerca de três
horas da manhã e Malu se revirava na cama do hospital, sem conseguir dormir.
Ouvia as gostas dos medicamentos caindo lentamente e entrando em suas finas
veias. A dor era intensa e sua inquietação crescia cada vez mais.
Quando já não suportava mais aquela situação, pediu a sua mãe para que
chamasse a enfermeira. Ao entrar no quarto, a enfermeira, assustada com o
horário em que a criança estava acordada, ouviu o clamor da pobre menina. Malu
pedia pela presença dos Doutores da Alegria, um grupo de palhaços que a
visitavam periodicamente e a distraia com brincadeiras, fazendo a dor que
sentia com os medicamentos passar momentaneamente. Ao ouvir o pedido da
criança, a enfermeira se sentiu comovida, mas como sabia que naquela hora os
Doutores da Alegria não estavam no hospital, procurou outra saída. Em sua bolsa
havia um palhaço de brinquedo que comprara para seu filho. Lembrando então
deste, ela o levou para a menina, como forma de amenizar sua dor, explicando
que não havia como chama-los no momento e que ao amanhecer ela receberia a
visita dos palhaços de verdade. Triste, porém conformada, Malu abraçou o boneco
e sentiu seus olhinhos pesados de sono, pois a enfermeira havia lhe dado um
remédio para dormir.
Ao amanhecer Malu já não sentia tanta dor, e sua fisionomia melhorava aos
poucos. Logo cedo, os Doutores da Alegria bateram a sua porta e encheram sua
manhã de alegria. O dia passou, e a menina nada mais sentiu.
A noite avançava e o silêncio tomava conta do hospital. Malu dormia
profundamente e nada mais perturbava seu sono. Em plena madrugada, novamente às
três da manhã, a menina acordou com barulhos na cortina e pensando ser somente
o vento, voltou a dormir. Porém, ao virar na cama, sentiu a presença de alguém,
e ainda com os olhos fechados, chamou por sua mãe que não a respondeu. Para sua
surpresa ao abrir os olhos notou que o palhaço que ela havia ganhado da
enfermeira estava em pé ao seu lado, emitindo uma forte luz vermelha através de
seus olhos. A garota, assustada, começou a gritar desesperadamente, mas não
conseguia emitir som algum, pois a luz que saia dos olhos do boneco a impedia
de pedir ajuda. O palhaço agarrou seu pescoço e com uma voz grave que a deixava
paralisada de medo, indagou: “Sua vida agora me pertence! Tudo o que eu mandar
você vai fazer se não... VOCÊ VAI MORRER!!!”. Ao soltar o pescoço da menina o
palhaço voltou a ser apenas um brinquedo, e a menina caiu em um sono profundo.
Na manhã seguinte Malu acordou achando que tudo não passava de um
pesadelo, e não se preocupou com o ocorrido. Seu dia fluiu normalmente,
seguindo a mesma rotina de sempre. A noite caia e Malu se preparava para
dormir, quando percebeu que havia algo debaixo do seu travesseiro. Era o
palhaço que havia voltado e estava a encarando, com seus olhos vermelhos e
ainda mais iluminados. Os gritos novamente não saiam e ela não sabia mais o que
fazer. O boneco, sem nenhum escrúpulo, e com os olhos cada vez mais vermelhos,
a torturava. Fez então sua única e dolorosa exigência: “Você deve matar sua mãe
e me entregar o coração, e se não fizer sabe que morre...”. A menina
desesperada com o pedido do boneco entra em desespero mas antes que pudesse
pedir misericórdia adormece. Ao acordar vê sua mãe sentada no sofá do quarto,
que ficava ao lado da cama, bordando uma toalha, e desaba em lágrimas deixando
sua mãe e as enfermeiras preocupadas com a situação. Assim seguiu a semana de
Malu, noite após noite sento torturada pelo boneco do mau, e ouvindo suas
cobranças em matar a mãe e lhe entregar o coração.
O quadro da menina já não andava bom, após as noites de tortura a garota
amanhecia cada dia pior e os médicos não conseguiam encontrar a causa dessa
piora. A menina que andava respondendo bem ao tratamento estava chegando ao fim
de sua vida, por conta das noites sendo torturada pelo palhaço de brinquedo.
Em uma noite, Malu já não suportava mais as dores e como já estava no fim
de sua vida fingiu que estava dormindo e espera sua mãe se retirar do quarto,
como fazia todas as noite para orar pela menina. A garota se levantou da cama, arrancou
os aparelhos de seu corpo, pegou o boneco em seu colo, e caminhou lentamente e
com muita dificuldade até a janela, se jogando do quarto andar, caindo no jardim
do hospital. A garota se matou, deixando então sua mãe viva e apenas uma carta
escrita com letras tremulas: “Enterre o boneco comigo”.